Tarô

Tarô de Marselha: de jogo de cartas a oráculo

Por Lunaple · 18 de julho de 2026 · Português
Ilustração estilizada de cartas de tarô antigas dispostas em leque sobre uma mesa de madeira, com detalhes ornamentais em azul e dourado, sem texto visível

Você já parou para pensar que aquelas cartas cheias de símbolos misteriosos — a Sacerdotisa, o Louco, a Roda da Fortuna — podem ter começado como um simples passatempo de nobres italianos? É isso mesmo. A história do Tarô de Marselha é uma das mais fascinantes viradas de roteiro que a cultura ocidental já produziu: um baralho que nasceu para entretenimento e foi, séculos depois, reinventado como janela para o inconsciente e ferramenta de reflexão pessoal. Bora mergulhar nessa jornada?

Primeiro capítulo: um baralho para jogar

Antes de qualquer aura mística, o tarô foi, acima de tudo, um jogo. O historiador britânico Michael Dummett, em seu estudo acadêmico The Game of Tarot (1980), documenta com rigor que o tarô surgiu como baralho de cartas no século XV — provavelmente no norte da Itália — muito antes de qualquer uso adivinhatório. Dummett demonstra que os primeiros decks conhecidos, os chamados tarocchi, eram usados em partidas de cartas pela aristocracia italiana, de maneira semelhante a outros jogos de baralho da época.

Segundo Dummett, esses baralhos incluíam um conjunto especial de cartas ilustradas — os triunfos, ou trunfos — que funcionavam como cartas especiais dentro do jogo. As imagens alegóricas que hoje nos parecem tão carregadas de significado (o Imperador, a Morte, o Mundo) eram, naquele contexto, simplesmente figuras decorativas com valor estratégico dentro das regras da partida. Nada de profecias, nada de destino: era diversão de salão.

A grande virada: quando o Egito entrou na jogada

Por séculos, o tarô circulou pela Europa como jogo. Então chegou 1781 — e com ele, uma publicação que mudaria tudo. Antoine Court de Gébelin, erudito francês fascinado pelas origens das civilizações, incluiu no oitavo volume de sua obra enciclopédica Le Monde primitif um ensaio ousado: ele afirmava ter descoberto que o tarô era, na verdade, um antigo livro sagrado egípcio, preservado sob a forma de cartas.

De acordo com Court de Gébelin, as imagens do tarô carregavam sabedoria hermética transmitida pelos sacerdotes do Egito antigo. Em suas próprias palavras registradas em Le Monde primitif, ele via no baralho um repositório de conhecimento esotérico que havia sobrevivido ao tempo disfarçado de jogo. Era uma ideia brilhante — e completamente sem respaldo histórico, como Dummett deixa claro em sua análise. Mas era também irresistível para o espírito iluminista e ao mesmo tempo romântico da França do século XVIII.

De Paris para Marselha: a identidade de um ícone

O estilo de baralho que hoje chamamos de Tarô de Marselha consolidou-se como um dos formatos mais difundidos na Europa, especialmente na França. Michael Dummett documenta em The Game of Tarot que diferentes regiões e fabricantes produziram variações do baralho ao longo dos séculos, e que o padrão associado à cidade de Marselha tornou-se particularmente influente — tanto para o jogo quanto, posteriormente, para a tradição divinatória que se desenvolveria a partir das ideias de Court de Gébelin e seus sucessores.

É importante dizer com clareza: a associação entre Marselha e um estilo específico de tarô é uma questão de história da impressão e do comércio de cartas, não de origem mágica ou sagrada. Dummett é enfático ao separar a história factual do baralho das camadas de interpretação esotérica que foram acrescentadas depois.

A tradição divinatória: folklore moderno com raízes recentes

Então, quando o tarô virou ferramenta de adivinhação de fato? Segundo Michael Dummett, o uso sistemático do tarô para fins divinatórios só se desenvolveu a partir do final do século XVIII — ou seja, é uma tradição relativamente recente, e não uma prática ancestral como muitas vezes se imagina. Foi justamente a publicação de Court de Gébelin em 1781 que abriu as portas para essa reinterpretação: ao afirmar uma origem egípcia e esotérica para o baralho, ele inspirou toda uma geração de ocultistas e cartomantes a explorar as cartas como espelho do destino e da psique humana.

Vale reforçar: a ideia de que o tarô veio do Egito antigo é, conforme Dummett documenta extensamente, uma lenda — um mito moderno criado no século XVIII, não um fato histórico. Isso não diminui em nada o valor cultural e simbólico que o tarô adquiriu ao longo dos séculos. Significa apenas que estamos diante de uma tradição viva, que se construiu e se reinventou ao longo do tempo, como tantas outras formas de cultura humana.

Por que o tarô ainda fascina?

Conhecer a história real do tarô — longe das lendas douradas e das origens inventadas — não apaga o encanto das cartas. Se algo, torna tudo mais interessante. Afinal, estamos falando de imagens que atravessaram séculos, passaram de mesas de jogo para salões esotéricos, e hoje habitam mesas de leitura em todo o mundo. Cada carta carrega camadas de significado acumuladas por gerações de pessoas que as usaram para refletir sobre suas vidas, seus medos e seus sonhos.

O Tarô de Marselha, com seus trunfos cheios de figuras alegóricas, convida a uma pausa. Não como profecia — nenhuma carta prevê o futuro — mas como espelho simbólico, uma linguagem visual rica que pode ajudar a organizar pensamentos e sentimentos. É uma ferramenta de autoconhecimento e reflexão cultural, não de adivinhação literal. E essa função, ao que tudo indica, é o que garante ao tarô sua longevidade surpreendente.

Da corte italiana do século XV à sua bolsa ou gaveta hoje, o baralho percorreu um caminho longo e cheio de reviravoltas. E a próxima vez que você olhar para o Louco ou para a Estrela, saberá que está segurando séculos de história humana nas mãos — e isso, por si só, já é mágico.

Fontes:
  • Antoine Court de Gébelin, Le Monde primitif, vol. VIII (1781). Fonte primária que inaugurou a interpretação esotérica do tarô, atribuindo-lhe origem egípcia.
  • Michael Dummett, The Game of Tarot (1980). Estudo acadêmico que documenta a origem do tarô como jogo de cartas do século XV, anterior a qualquer uso adivinhatório.

Este artigo é oferecido como reflexão cultural e histórica. O tarô é abordado aqui como patrimônio simbólico da humanidade, e não como método de previsão do futuro.

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Agora que você conhece a história por trás das cartas, que tal explorar o que cada arcano pode revelar sobre o seu momento de vida? A Lunaple está aqui para te acompanhar nessa jornada de autoconhecimento.

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