Entre os povos iorubás da Nigéria e da África Ocidental, o Ifá é um dos sistemas de adivinhação mais elaborados que o mundo conhece. Não se trata de uma leitura improvisada nem de transe: o Ifá repousa sobre um vasto corpo de textos memorizados e um método de sinais que o adivinho interpreta com rigor quase matemático. Segundo a UNESCO, esse corpus é transmitido oralmente pelos sacerdotes e reúne história, língua, crenças e a visão de mundo iorubá.
O babalawo e seus instrumentos
O sacerdote do Ifá é o babalawo — título masculino; entre as mulheres iniciadas usa-se íyánífá. Ele atua como intérprete de Orunmila, a divindade (orixá) iorubá associada à sabedoria e à própria adivinhação. Para consultar o oráculo, o babalawo recorre a dois instrumentos. O primeiro é o opele, uma corrente divinatória de oito elos que, lançada sobre uma esteira, revela de uma só vez uma combinação de sinais. O segundo, mais antigo e solene, são os ikin: dezesseis sementes sagradas do dendê (a palmeira de óleo), manipuladas entre as mãos sobre a bandeja de madeira chamada opón Ifá. Cada manipulação produz uma marca, e o conjunto aponta para uma figura específica.
Os 256 Odù
Essa figura é um Odù. Existem 256 Odù no corpus do Ifá, derivados dos 16 Odù principais (os Ojú Odù) combinados entre si — 16 vezes 16. Cada Odù abre uma verdadeira biblioteca de versos chamados ese, recitados em linguagem poética. Os ese trazem mitos, provérbios, histórias e ensinamentos morais, e seu número exato é desconhecido, pois continua a crescer. O sentido de uma consulta nasce do encontro entre o Odù sorteado e o saber do babalawo, que escolhe e interpreta os versos pertinentes — razão pela qual a formação de um sacerdote leva anos de memória e estudo.
Patrimônio reconhecido pela UNESCO
Em 2005, a UNESCO proclamou o sistema de adivinhação Ifá como Obra-Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade, por candidatura da Nigéria. Em 2008, com a entrada em vigor da convenção de 2003, o Ifá foi incorporado à Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. O reconhecimento valoriza não apenas a técnica, mas a língua poética e a memória coletiva que o oráculo preserva. Tradição religiosa viva — praticada hoje na África e na diáspora —, o Ifá merece ser lido como herança cultural e filósofica, e não como previsão literal do futuro.
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